segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O GRITO SILENCIOSO DA MÃE NATUREZA.

(Crônica: Uma análise crítica relativa ao meio ambiente). Texto e vídeo apresentados na Universidade de Santiago do Chile em 10 de outubro de 2015. O vídeo poderá ser encontrado no YouTube ou no meu BLOG.

Quero que fique bem claro que eu não pretendo falar aqui neste vídeo dos oráculos, dos místicos que na trilha do silêncio percorrem a busca de Deus. Nem me interessa neste momento citar poderes mágicos, meditações, separar culturas, credos religiosos e seitas. Também não quero questionar aqui, o silêncio, ausência de sons, que podem representar emoções, sentimentos, desagrado ou introspecções. O que escrevo pode ter acontecido num dia qualquer, numa tarde quente ou fria, antes do sol nascer ou se pôr. Preocupado com a mãe natureza caminhei por uma estrada que serpenteava no meio das plantações de milho ainda com pendo dando, e mais adiante, embrenhei-me por entre um canteiro de flores nativas criadas pela própria natureza, todas esparsas, que se alinhava à beira de estrada de chão batido, e no meio do roseiral, um pé de Ipê cujas flores caiam sobre a relva formando um tapete colorido, mágico, que resistiam as intempéries do tempo. À medida que o cerrado ia se aproximando, observei que a estrada se tornava mais retilínea, deixando de ser monótona. Já se ouvia o canto dos pássaros, um bando de araras que passavam voando alinhadas emitindo gritos roucos, enquanto as emas com suas pernas longas se assustavam com o ronco dos motores saindo em desabaladas carreiras cortando o capim e galhos secos que já eram visíveis naquele belo Parque Ambiental. 

No silêncio daquelas estradas, em pleno solstício de verão, a natureza parecia oprimida, alguns animais passavam sorrateiros, uns se arrastavam lentos pelo chão, outros velozes, mas todos com trejeitos e trotões diferentes, sem atitudes repetidas, demonstrando certo medo da presença dos humanos que visitavam o Parque. Alguns animais pereciam ter vindo de uma mata distante, de um brejal, de um buraco, ou das cercanias de uma serra que meus olhos conseguiam ver bem distante. A quantidade de animais solto naquelas pradarias era tanta que me deixava boquiaberto. Fora do alcance da visão deles tentava interpretar cada ação, cada movimento, porém, era fácil compreender que para eles não existiam dia, noite, sol, frio, ontem ou amanhã, e não eram sonâmbulos, nem robôs. Tinham pernas, braços, corpo cheio de pelos e penas, e nem eram estranhos para nós. Estavam sob a nossa proteção naquele parque de preservação ambiental. Um grito podia ecoar pelos campos e assustá-los ou até para aqueles que viam o ser humano pela primeira vez, mas, por incrível que pareça, alguns animais passavam perto das pessoas se fazendo de surdos e surdos seguiam seus caminhos. Conheciam o seu habitat.

O trânsito de pessoas, pouco a pouco, foi se acumulando e quando cheguei a um cruzamento de estradas vicinais aí vi que a coisa piorou! Não era um estrangulamento qualquer. Era muita gente e esquisitas mesmo! Saíam de todos os lados. Algumas se moviam lentamente, outras paravam, e depois, andavam sem compasso, e preguiçosamente, mais adiante, paravam novamente. Aquilo me deixava atônito. Uns iam e voltavam levando e trazendo nos braços espingardas, machados e motosserras. Outros, com trouxas nas costas seguiam sem rumo naquelas pradarias em busca do improvável. As estradas, ora serpenteadas, ora retilíneas, pareciam ter sido construídas para loucos, mas eu não era louco e o que eu estava fazendo lá? Será que estava sonhando? E era um sonho mesmo, pois acordei em sobressaltos. Então, se tudo eram apenas sonhos o fato é que tive de acalmar meu coração com um gole d’água. E foi aí que me lembrei de minha alma de poeta e dizem que todo poeta tem um pouco de louco, ainda mais quando se procura sinais primaveris em épocas de verão ou inverno para captar inspirações e escrever loucuras poéticas. Mas antes que eu acordasse daquele sonho, observei que a impaciência continuava a buzinar no meu ouvido direito e o esquerdo que era mais paciente, nem respondia, mas, as loucuras impacientes entraram em confronto para tumultuar transformando numa zoeira danada, misturando vozes humanas com os sons estridentes de tiros, barulhos de motosserra e berros metálicos que vinham da única mata sobrevivente que se avivou no meu sonho naquela noite fatídica.

Com o coração batendo mais compassadamente e no afã de levar uma mensagem deste rincão brasileiro levantei-me devagarzinho e me postei diante do monitor. Comecei a escrever, amparado por um silêncio total. Lembrei-me dos momentos em que visitei várias regiões onde me deparava com imensas queimadas e terras totalmente devastadas pelos arados. Mas hoje, vivendo no mundo real senti a impaciência nervosa e a quase paciente protestarem em conjunto, porque a natureza está em perigo constante. E aí forcei a minha memória e captei de meu subconsciente alguns flashes daquele sonho. Seguidamente vieram as vozes roucas daqueles seres humanos esquisitos, os tiros, golpes de machado e os berros metálicos que se multiplicavam. Parei. Dei uma pausa. Lembrei-me de quando era um menino inocente e sonhador, que criava frases às vezes sem nexo, mas, quando embebido de amor extraído dos quintais cheio de flores e frutos, sequer sabia que existia entre o medo e emoção, o gosto do pecado e a certeza da paixão... No meu recanto nostálgico, eu ouvia, às vezes, nas tardes silenciosas, o canto de um Curiango vindo do pé da serra, não tão longínquo que era logo respondido por outro. Ora, o outro, então, era um galo que cantava e a quem logo respondia, como num eco, um cocoricó distante, esganiçado e simpático de um galinho novato e aprendiz, que eu o chamava de Barnabé. E de novo o silêncio caía sobre a gente como um cobertor macio, o cocoricó..., se esticando, se esticando, perdendo-se num adormecer suave e brumoso em que se misturavam a realidade e o sonho. 

Vi que terra pedia socorro. Atônito, não tive alternativa senão em usar as asas da imaginação com o fito de alertar a humanidade. Em segundos me vi novamente vagando pelo espaço sideral e num vôo alado, esquisito, passei por lugares distantes, inimagináveis, e sustentado pela força da gravidade ia fotografando tudo que via pela frente e lá de cima vislumbrava a amplitude do universo que nem sabemos ter fim. As nuvens nem se assustavam com aqueles pares de asas brancas encorpadas num ser humano, mas, pareciam entender que cada uma levava consigo uma esperança,   ilusão, mágoa, ansiedade e medo. O corpo voava mansamente rumo norte, cuja rota sequer tinha planilhas de vôo. Era apenas um corpo vagando pelo espaço de olho na natureza e com flashes certeiros fotografava oceanos, serras, milhares de meandros, savanas, lagos, matas e dezenas de rios que desaguavam  no mar. Num serrado ingente circundado por densa mata brotavam imensas queimadas que sustadas pelo vento se alastravam, soltando aspirais de    fumaça que se misturavam com as nuvens, cujo fogo devastava os últimos resquícios de verde, deixando-os esbatidos sobre a terra que chorava de dor. Aflito, observei o homem atiçando fogo que queimava a terra com suas chamas ardentes, e de forma implacável, aquele imenso serrado e matas, silenciosos, quedavam-se sobre a terra. 

Na ânsia de preparar o plantio, o desmatamento para ampliação de sua lavoura, a limpeza de um pasto e ou mesmo colheita manual de cana-de-açúcar é que faz o homem atiçar fogo na área, destruindo a fauna e flora, empobrecendo o solo, reduzindo a penetração de água no subsolo e, em certas situações, causam mortes, acidentes e perdas de propriedades. Não obstante tudo isso, o que mais me assusta é a poluição atmosférica com prejuízos consideráveis à saúde de milhões de pessoas. As queimadas são associadas com modificações da composição química da atmosfera e mesmo do clima do planeta que a cada dia nos sufoca. A terra parece estar em transe e com seqüelas deixando a população mundial vulnerável, não restando ao homem  alternativa senão em buscar como último ato evocar a proteção de Deus, pois se sabe que ela ainda não está preparada  espiritualmente para receber os efeitos danosos do aquecimento global. 

Usando as asas da imaginação como forma de alertar o leitor percorri também a estrada da vida e durante o voo pude vislumbrar momentos de desespero em face dos desastres naturais provocados pelo próprio homem. Foi  através dessa viajem  imaginária, observando os erros e acertos em várias partes do mundo, não cheguei a nenhuma conclusão fática em relação à ação humana, mas, imbuído do desiderato de bem informá-lo e de haver encontrado ao longo dessa “viajem” o amor e ver realizados alguns sonhos, muitas vezes, cheios de nuances, que dificultam ao homem alcançar outros sonhos e objetivos antes de chegar ao final da viajem, mesmo quando  ele usa apenas as asas da imaginação.

Noutras regiões do planeta o homem desmatava, sugava areias dos rios, poluía o ambiente com seus milhões de veículos e grandes indústrias que soltavam gases poluentes de suas chaminés, jogando-os na  atmosfera,  formando no espaço o dióxido de carbono que provoca o efeito estufa. E foi aí que passei a entender porque tanto se noticia sobre aquecimento global. Entretanto, não adianta fugir dessa realidade. As atitudes demonstradas por cada ser humano, por mais que isso venha afligir a nossa terra,   considero que essa demonstração de descaso, caso não seja combatido, continuará sendo apenas uma gota de orvalho que não tem mãos para levantar aos céus e pedir ajuda ao Criador, pois rapidamente se evapora sob os raios de sol.

Em resumo, hão de se convir que hoje exista uma complexidade ambiental que demanda uma análise profunda da forma como o ser humano ter se relacionado com ela. A Terra, alvo de exploração por uma sociedade apoiada na ideologia modernista, tanto cientificamente como econômica e de forma ilimitada, caracterizada pelo aumento do consumo, a natureza, convertida em recursos para os processos produtivos e objeto de intensa agressão, como se vê nas imagens, começa a dar sinais de exaustão. Se formos destacar os impactos ambientais provocados pela atividade humana podemos incluir: o aquecimento global, a devastação de florestas, a contaminação dos recursos hídricos, o aumento de resíduos poluidores, a perda da biodiversidade, a poluição atmosférica com emissão de gases de chaminés das fábricas e veículos, os quais repercutem negativamente na qualidade de vida de toda a sociedade. O cenário que coloco neste texto acompanhado de imagens exige uma postura ativa dos que exercem a Administração Pública, com a aplicação do direito ambiental. Contudo, a sua abordagem dominante enfatiza a perspectiva legalista, abstrata, marcada pela racionalidade técnico-formal, que se revela insuficiente para tratar desta cruciante situação que vive o meio ambiente, assim como, em outras dimensões, como a social, ética, política e cultural. O mundo, com relação ao meio ambiente passa por um momento de reflexão e todos, ambientalistas ou não, terão que identificar de forma interdisciplinar as contradições de uma sociedade e verificarem as possibilidades reais de sua superação. Concordamos quando Horkheimer afirma: “A sociedade atual é dominado por uma racionalidade capitalista, utiliza a natureza de acordo com seus interesses”, fato que tem caracterizado a destruição do meio ambiente externo e a dominação interna do homem que encontra dificuldades para superar esta situação. Concordamos também que deve haver uma abordagem crítica do direito ambiental de modo que venha permitir formular, discutir e enfrentar de uma maneira mais consciente e precisa os problemas ambientais contemplando as suas especificidades sem perder de vista as conexões entre as diversas dimensões da questão e sem que isto signifique uma teoria abstrata e acabada, mas algo que possa ser constantemente submetido à crítica e orientado para a transformação social.

Voltando a comentar sobre a poluição ambiental, cujas imagens acima são estarrecedoras, esta prejudica o funcionamento dos ecossistemas, chegando a matar várias espécies animais e vegetais. O homem também é prejudicado com este tipo de ação, pois depende muito dos recursos hídricos, do ar e do solo para sobreviver com qualidade de vida e saúde. Os principais poluentes ambientais são: chumbo, mercúrio, benzeno, enxofre, monóxido de carbono, pesticidas, dioxinas e gás carbônico. Soluções para combater esse mal devem vir de ações governamentais, incluindo, além da fiscalização sistemática e aplicação de multas às empresas e pessoas que poluem o meio ambiente, também a conscientização da população e desenvolvimento de programas de educação ambiental e incentivos governamentais para que as empresas utilizem fontes de energia limpa como, por exemplo, eólica e solar.

No que tange a poluição, esta é dividida em quatro fatores: 1) Poluição térmica: a temperatura do ar, ou da água, aumenta muito. No caso das águas, muitas vezes essa poluição térmica ocorre em virtude da utilização dela para o resfriamento de peças de grandes indústrias, sendo depois devolvida para seu lugar de origem. Assim, ela retorna com a temperatura mais alta, podendo provocar a morte de animais e outros seres vivos que vivem ali: 2) Poluição do ar, esta ocorre pelo aumento de gases poluentes na atmosfera. Esse fato prejudica a qualidade do ar, podendo provocar doenças respiratórias em diversas pessoas. Além disso, dependendo do gás em questão, muito outros problemas podem ocorrer como o aumento da temperatura, chuvas ácidas, etc. Alguns grandes responsáveis pela poluição do ar que fizemos por bem postar imagens são os escapamentos de veículos, indústrias, queimadas de florestas e incineração do lixo doméstico; 3) Poluição do solo: esta ocorre principalmente pelo acúmulo de agrotóxicos e de lixo, como restos de embalagens, comidas, plásticos, etc. Esse tipo de poluição compromete a vida dos seres vivos que ali habitam, e é capaz de contaminar os lençóis freáticos (água que fica acumulada abaixo do solo). Para evitar esse problema, devemos evitar usar embalagens desnecessárias, jogar fora o mínimo de coisas possível, buscando sempre reaproveitá-las e também mandar consertar aquilo que estragou; 4) Poluição da água: a principal causa da poluição das águas é o lançamento de lixo e esgoto nos rios, mares e lagos. O esgoto, por conter diversas impurezas, pode transmitir doenças infecciosas e contagiosas; causar a intoxicação e até mesmo a morte dos seres vivos que vivem ali, etc. Quanto ao lixo, o excesso de sacolas, garrafas PET e outros produtos de plástico, por exemplo, tem causado a poluição de diversas regiões do oceano com esse material.

Tudo isso é prejudicial à população mundial e causa uma degradação ambiental quase irreversível. Ela é o processo pela qual se tem uma redução dos potenciais recursos renováveis provocada por uma combinação de agentes agindo sobre o ambiente em questão. A desertificação também é uma forma de degradação ambiental. Qualquer processo que diminua a capacidade de um determinado ambiente em sustentar a vida é chamado de degradação ambiental. Essa redução, que leva ao abandono do ambiente, pode ser causada por processos naturais, como, por exemplo, ressecamento do clima atmosférico, processos de formação dos solos ou de erosão e até mesmo uma invasão natural de animais ou plantas nocivas. Pode ocorrer também, direta ou indiretamente, por ações antrópicas, ou seja, aquelas causadas pelo homem.


Hoje, em razão dos fatos e situações comentadas acima, podemos afirmar que a mãe natureza está triste. Dificilmente vemos animais nos campos, os rios estão secando, faltam águas nas represas, os regos d’água para embalar os monjolos estão secando. Não há mais quintais e nos campos dificilmente nascem flores. Que silêncio! Perdemos a alegria harmoniosa do canto nostálgico dos bem-te-vis, do rouco canto das araras, dos sabiás... E que suavidade e doçura a sua voz me acalentava ao amanhecer. Que despertar festivo e triunfante eles me davam, principalmente naquelas manhãs primaveris. O canto rouco ou nostálgico, não importa de qual ave seja, transcendia o imaginário. Parecia saber colocar cada nota e sabiamente relacionada com outras que repetia com maestria e o eco de sua voz cortava o espaço daquele rincão levando saudades e nostalgia a outros recantos. Notas musicais, uma diferente da outra, tudo em ordem, sem cacofonia, sem igualdade. E por falar em igualdade, também, conclui-se que os homens são assim. É a desigualdade que permite ordená-los e harmonizá-los. Cada pessoa é como uma pequena nota no concerto da humanidade. Cada nota é necessária e tem uma beleza particular. Por menor que ela seja, por menos que ela dure, coopera para a beleza do concerto. Cada homem, por menor que seja, tem uma beleza própria que lhe advém de ser o que ele é, um reflexo, uma imagem de Deus, diferente dos outros. Cada homem é único e tem em sua alma uma beleza própria. E é com essa beleza pessoal e única que cada um contribui para a beleza maior do conjunto, para o grande concerto da humanidade, que Deus compôs com sábia ordenação, com sapiencial desigualdade. Meu Deus! Tenho que deixar esta estrada que corta o Parque Ambiental, que felizmente hoje protege a fauna e flora e me faz recordar de um concerto de outrora que me traz saudade: a voz do galo Barnabé, o canto das seriemas, dos bem-te-vis, dos sabiás e das harmonias do seu canto! E que saudades dos ipês coloridos, das flores que ornamentavam os quintais, das ribanceiras verdejantes e dos campos zelosamente cuidado pelos nossos ancestrais. Quando voltarão a cantar os galos, os bem-te-vis, os sabiás..., e ao anoitecer, o curiango, naquele cerrado íngreme? Quando voltará tudo isso? Quando voltará a se ouvir na terra o concerto humanístico da humanidade.
VANDERLAN DOMINGOS. Advogado, escritor, missionário e ambientalista. É Vice Presidente da União Brasileira dos Escritores em Goiás; Membro da Academia de Letras de Morrinhos e da ALCAI – Academia de Letras, Ciências e Artes de Inhumas. Foi agraciado com Título Honorífico de Cidadão Goianiense. Escreve todas as quartas-feiras para o Dário da Manhã. Email: vdelon@hotmail.com Blog: vanderlandomingos. blogspot.com Site: www.ongvisaoambiental.org.br





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